Política e Natal - Parte 1: Político não é Papai Noel e Nem Deveria Tentar Ser

November 30, 2017

 

A figura do Papai Noel é muito criticada por sua relação com o capitalismo e há quem o identifique com a parte materialista de uma data que deveria ser mais espiritual do que material. 

 

No entanto, poucos notam uma certa hombridade que há no uso desta figura natalina e que vem de sua característica mais importante: a inexistência.  

 

Por ser Cristão e Rosa Cruz, compreendo tal utilidade da figura sorridente de Santa Claus, pois um dos ensinamentos da Ordem é justamente se afastar da vaidade ao fazer boas ações, preferencialmente fazendo-as no mais completo anonimato. Acredito pessoalmente que tal atitude se adéque perfeitamente com um dever cristão. 

 

Esta talvez seja a grande lição de Noel, pois ao dar presentes para as crianças pequenas os pais e demais familiares deixam de lado qualquer eventual egoísmo personalista e patrimonialista de se envaidecer dizendo "eu que dei o presente" e transferem a autoria da boa ação para este ser imaginário. 

 

Exemplo mais bonito ainda advêm daqueles que, sozinhos ou em conjunto, reúnem doações e adentram em bairros carentes, creches e asilos para presentear pessoas que nem conhecem. Deixam os louros, as vaidades e os holofotes com a figura do Papai Noel, a recompensa é a felicidade que proporcionamos ao próximo. As boas ações para pessoas distantes representam mais ainda o espírito natalino. Estes seguem ainda mais o exemplo de São Nicolau.[1]

 

A felicidade em ver aquele que recebeu o presente feliz é o que basta, não havendo necessidade de pessoalizar ou se apoderar de tal ato. Não importa quem deu o presente, o que importa é o destinatário estar feliz. 

 

Eis onde queria chegar: a ausência de pessoalidade, ou impessoalidade. 

 

Esta não é apenas uma palavra qualquer, é um dos deveres da administração pública, princípio expressamente previsto no caput da Art. 37 da Constituição Federal.

 

O administrador público e os parlamentares devem se preocupar, resguardar e atuar para atender o interesse público e, ao fazê-lo, não vincular tais atos a sua imagem pessoal. 

 

Obviamente isto não vale apenas no final do ano, é um dever que sempre se impõe. 

 

Porém, é de conhecimento notório que muitos políticos, sejam eles do Poder Executivo ou Legislativo, usam seus mandatos, se valendo de dinheiro público, para fazer benesses e distribuir bens materiais para os cidadãos vinculando sua imagem a suposta "caridade". 

 

Entre tais doações, as mais comuns e caricatas são a distribuição de: cestas básicas, dentaduras, fraldas, cadeiras de rodas, muletas, etc.

 

Ocorre que tal "caridade" não passa da mais lavada improbidade, podendo caracterizar corrupção, conduta vedada e, próximo às eleições clara compra de voto.

 

Ao invés de elaborarem políticas públicas ou programas de governo visando à diminuição da desigualdade social, objetivo fundamental da República previsto no Art. 3º da Constituição;  ou garantir o direito a moradia e a alimentação, direitos sociais expressos no Art. 6º da Constituição - ou seja, atuar em prol das garantias e direitos fundamentais do cidadão -  ao contrário, tais sujeitos procuram se valer  de sua posição política para alimentar um circulo vicioso de precarização da máquina pública e exaltação da imagem pessoal.

 

Deixam de lado o fortalecimento e progresso de seu município, Estado e País, mediante o aperfeiçoamento da administração e a legislação, para enaltecer sua própria imagem através de favores embebidos do veneno da pessoalidade.

 

A vaidade em se passar por caridoso e benevolente já é reprovável moralmente, porém muito pior se há uso de posição política e gasto de dinheiro público – direta ou indiretamente -, pois tal ato ultrapassa a esfera da ofensa moral, podendo configurar ilegalidade na esfera cível, administrativa e penal.

 

No Natal tais atos são ainda mais nefastos socialmente, pois além de ofender um princípio da administração, atinge uma data religiosa e o sentimento de fraternidade que deve existir na comunidade. 

 

Talvez por esta falta de comprometimento com a coisa pública por parte de alguns mandatários, que esteja mais fácil para o cidadão acreditar em Papai Noel do que nos Políticos.

 

Com certeza São Nicolau não daria presente algum para os políticos que adotam tais práticas, muito pelo contrário, lhes daria é um puxão de orelha.

 

 

[1] São Nicolau é padroeiro da Rússia, Grécia e Noruega; e ficou conhecido no Séc. III por milagres e boas ações, em especial por sua caridade e preocupação com a educação das crianças, dando origem aos contos e a figura do Papai Noel.  

 

Figura: São Nicolau na Antuérpia (Bélgica) onde há comemorações natalinas com a presença e discurso em homenagem a memória e lições do santo.  Fonte e maiores informações em: <http://www.acasanamala.com/2015/12/sinterklaas-sao-nicolau-comemoracao-verdadeiro-papai-noel.html>.

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